O Brasil não gosta do capitalismo

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O Brasil não gosta do capitalismo

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Com opiniões fortes, o economista Gustavo Franco abre a série Perenidade, que discutirá o que chega a impedir ou favorecer futuro duradouro para as empresas.

Nesta entrevista, Gustavo Franco explica por que o Brasil vive o que chama de “capitalismo pela metade, que produz um sucesso pela metade ou um meio fracasso”. Ex-presidente do Banco Central, integrante da equipe que implementou o Plano Real, atual estrategista-chefe da Rio Bravo Investimentos e presidente do Instituto Millenium, Gustavo Franco abre a série Perenidade, que trará ao longo deste ano reflexões e propostas para garantir vida longa às empresas. Suas declarações mais contundentes mostram o espírito capitalista por ele defendido. Em uma delas, diz: “é o egoísmo que move o mundo, o desejo de crescer e enriquecer”. Em outra, dispara: “nosso problema é a falta de canibalismo entre empresas, sobretudo do mesmo ramo”. E a confiança no País aparece ao declarar: “o capitalismo brasileiro são os empresários brasileiros. E felizmente é assim, pois é nos empresáriGUSTAVO-FRANCOos que está o potencial de inovação e progresso”.

“Se a lógica do sistema é a de obter uma boquinha, um privilégio, uma reserva de mercado, não se deve esperar dos empresários, e também dos sindicatos, nada diferente de usar seu tempo e seus recursos para obter benesses. Isso ainda é muito forte no Brasil”.

O senhor declarou em artigo no site do Instituto Millenium, citando uma frase do ex-Presidente Fernando Henrique, que “o Brasil não gosta do sistema capitalista. Os congressistas, jornalistas e universitários não gostam do capitalismo.”

O “anticapitalismo” brasileiro tem uma longa história, bem capturada pela imagem do antropólogo Roberto Da Matta: a casa e a rua. A “casa” é a sociedade cordial, corporativista e organizada em torno de relações pessoais e afetivas, enquanto a rua é o terreno da impessoalidade, da competição, da meritocracia e da igualdade diante das leis. A “rua” é que se deseja para os inimigos da “casa”. A lei e a democracia são flexíveis na “casa” e não na “rua”. Mas é na rua que as coisas acontecem, a rua é o capitalismo, e a “casa” é o patrimonialismo.

Como romper com essa cultura?

O paradigma da “casa” se vê ameaçado pela democracia de massa e pela abertura, e também pela inovação tecnológica e a internet. A modernização exige que todos tenham que ir para a “rua”, pois este é o território do mercado, onde a competição é a regra do jogo. O governo não deve resistir a isso, mas facilitar a inovação e a modernização.

Com o retrocesso econômico, o que seria mais indicado: retomar decisões e continuar reformas, ou partir para um choque de capitalismo? Quais são as possibilidades?

Há uma imensa agenda de melhoria no “ambiente de negócios”, que é como o Banco Mundial designa a organização institucional da economia. Os problemas são conhecidos, e nada do que os relatórios do Banco Mundial dizem sobre as nossas leis tributárias e trabalhistas nos surpreende. Ocorre que, apenas de tempos em tempos aparece alguma liderança política simpática à mudança. A última foi Fernando Henrique, e seu impulso reformador tinha muito que ver com os pavores gerados pela hiperinflação.

O que é essencial para melhorar o ambiente de negócios?

Existem vários exemplos. Um deles é a liberdade de contratar relações de trabalho de forma diferente ao previsto na CLT. Por que proibir se as partes querem? Por que pessoas e empresas são obrigadas a pagar um sindicato, muitos dos quais só existem para receber o imposto sindical? E por que as pessoas não podem dispor da sua poupança entregue ao FGTS a fim de investir em outros mecanismos melhores de previdência?

Qual a responsabilidade do empresário diante de capitalismo ‘pela metade’, que o senhor declara existir no País? Como tornar o empresário responsável pelo capitalismo ‘inteiro’, que o senhor defende?

O empresário não deixará sua “zona de conforto” por sua própria iniciativa, todos gostam de uma vida tranquila. É ótimo ficar na “casa”, livre das ameaças da “rua”. O governo é que deve criar a tensão criativa por meio de processos que gerem competição, e que aumentem o desafio da concorrência. Os empresários, e indivíduos de forma geral, funcionam na base de decisões racionais em torno de incentivos: se não existe competição, a preguiça prevalece. Ninguém vai investir em fazer mais com menos (ou seja, aumentar sua produtividade) se não estiver diante de um desafio.

Mas não existem empresários que criam a própria tensão criativa?

Os empresários podem fazer muita coisa no seu quintal se existem os incentivos corretos. Exceto em casos muito especiais ninguém se dá ao trabalho de ganhar dinheiro com muito esforço se pode ganhar um pouco menos com pouquíssimo esforço. Quando as oportunidades se abrem, todavia, aparecem os melhores empresários, os que sentem os ventos da história.

Nos bastidores, o empresário brasileiro defende a sonegação (afinal, a carga tributária é alta, os recursos são mal aplicados, etc). Como romper com essa “verdade”?

Vamos romper no dia em que passarmos a adotar a máxima segundo a qual não existe “dinheiro público”, apenas dinheiro de quem paga imposto. O dinheiro dos impostos é um dinheiro suado, de quem trabalha, e são esses os que deveriam ter voz mais relevante no modo como o dinheiro de seus impostos é utilizado. Como é hoje, fica parecendo que o “dinheiro público não tem dono, e que existe uma viúva rica que pode pagar todas as contas.

Nem sempre os empresários conhecem o básico, como o ciclo financeiro. Isso compromete o capitalismo ‘inteiro’?

Quando não existe concorrência, ninguém precisa fazer conta, nem tratar bem o cliente.

Processos, metas também costumam estar fora do radar. Isso torna o capitalismo mais sujeito à busca de “privilégios”?

Se a lógica do sistema é a de obter uma boquinha, um privilégio, uma reserva de mercado, não se deve esperar dos empresários, e também dos sindicatos, nada diferente de usar seu tempo e seus recursos para obter benesses. Isso ainda é muito forte no Brasil.

Relacionamentos ‘canibais’ entre empresas e seus fornecedores geram um capitalismo menos denso, ou isso faz parte do jogo?

Esse “canibalismo” é do jogo, e deve haver instituições (como o CADE) que tratem dos “excessos” e do exercício indevido de poder de mercado. Nosso problema, entretanto, não é esse, mas o de falta de “canibalismo”, sobretudo no plano horizontal (entre empresas do mesmo ramo). A grande quebra de paradigma deve ser a abertura, que beneficia sobretudo o consumidor, um personagem que raramente aparece nas cogitações das políticas públicas.

Por que é tão difícil para o empresário abrir o capital, atrair fundos de investimento ou partir para uma fusão?

Não é tão difícil, é apenas caro e inútil, na maior parte dos casos. Seria bom se o mercado de capitais oferecesse capital barato às empresas, mas infelizmente não é isso o que temos. O dinheiro do mercado de capitais é tão caro quanto o dos bancos, que é muito caro, e a culpa é do Tesouro Nacional, que paga juros altíssimos para rolar sua dívida e assim faz o dinheiro ficar caro para todo mundo.

“Não acredito em capitalismo solidário, nem em nada dessas coisas. As pessoas e empresas vão produzir melhor se for do interesse delas. Fora isso o que existe é uma engenharia social malsucedida. Nenhum outro sistema sobreviveu até hoje, só o capitalista”.
Até que ponto o empresário é responsável pela baixa produtividade de sua empresa?

O empresário sabe como conseguir mais produtividade, não será o economista nem o burocrata que vai lhe ensinar. O ponto é que ninguém vai se dar ao trabalho (inclusive porque não é pouco trabalho) se não houver necessidade (criada pela concorrência). São muitas as fórmulas, mas sempre há esforço e risco. E ninguém vai fazer este investimento por amor à causa da eficiência, mas porque precisa.

Com a alta do consumo nos últimos anos, o varejista alimentar sentiu necessidade de buscar maior produtividade. O aumento do consumo não teve esse aspecto favorável?

O consumo e o investimento devem caminhar juntos, ou seja, o crescimento das vendas deve vir junto com o crescimento da capacidade de produzir. São os empresários que governam a sincronia entre esses movimentos, e há casos tanto de capacidade ociosa, quanto de excesso de consumo. As políticas de governo devem ajudar este movimento coordenado emitindo sinais consistentes.

O empresário pode mudar o capitalismo brasileiro?

O empresário é o capitalismo brasileiro, estamos tratando do mesmo personagem. Marx dizia que o capital não é um saco de dinheiro, nem uma fábrica, mas uma relação social. O capitalismo brasileiro são os seus empresários, e felizmente é assim, pois é nos empresários que está o potencial de inovação e progresso. O jogo está dado, os papéis distribuídos, e o que não está funcionando é o Estado, capturado por uma quadrilha.

O CEO da rede americana Whole Foods comentou que os empresários são vistos como gananciosos. E disse que é preciso mudar ‘essa narrativa’. O senhor concorda?

Não há outra história, não acredito em capitalismo solidário, nem nada dessas coisas. As pessoas e empresas vão produzir melhor se for de interesse para elas. É o egoísmo que move o mundo, o desejo de crescer e enriquecer, e a associação entre este desejo, o esforço e o sucesso. Fora disso, o que existe é uma engenharia social malsucedida.

O Brasil pode pular para o capitalismo ‘inteiro’? Ou isso tudo é só uma maneira de “mudar a narrativa”?

A narrativa que conta é a da prosperidade, com o sucesso não dá para discutir. O que temos no Brasil é uma ideologia do atraso, de preservação do status quo, uma sociologia da boquinha, da corrupção e do privilégio. Isso pode funcionar como “narrativa política”, o que é uma lástima.

Abstraindo um pouco do cenário atual, como o senhor vê a evolução do capitalismo no Brasil? Dá pra ter esperança?

Sou um otimista a médio prazo, pois não consigo ver uma nação tão jovem e vibrante se deixar enganar por tanto tempo. Estivemos experimentando vários tipos de ilusões, e esse idealismo nos levou a uma situação horrível, tanto no plano ético, quanto no tocante ao desempenho econômico. Vamos aprender a lição e fazer certo na próxima vez.

Como as empresas podem garantir perenidade, diante desse cenário mais animador?

Às vezes, trata-se apenas de prender a respiração enquanto a onda passa. É o que tem sido feito: aguardar a turbulência passar, não tentar nenhum movimento arriscado em condições tão difíceis.
OBS: Entrevista feita por Sheila Hissa a revista SM.

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